sábado, 30 de junho de 2012

Metalinguagem no Sítio

Mesmo aqueles que tiveram contato ocasional com a coleção "Sítio do Picapau Amarelo" (ou com as adaptações para a TV) devem recordar as cenas em que Dona Benta, na sala de estar, lia histórias para os netos Narizinho, Pedrinho, além da boneca Emília, o sabugo Visconde e Tia Nastácia.

Não por acaso, trata-se de situação recorrente na série construída por Monteiro Lobato, quando o escritor brasileiro aproveitava para explorar o universo da leitura e sua relação com as crianças. Tal estratégia chamou atenção da escritora cearense Socorro Acioli, que a transformou em objeto de pesquisa durante o mestrado em Literatura Brasileira na Universidade Federal do Ceará.

Da dissertação derivou o livro "Aula de leitura com Monteiro Lobato", a ser lançado amanhã (17) na Livraria Cultura. A partir de conceitos e métodos da Teoria Literária, Acioli elucida práticas e modos de ler abordados por Lobato em Sítio do Picapau Amarelo, além de questões relacionadas à formação de jovens leitores - todas, até hoje, indiscutivelmente atuais, a despeito da trama do autor ser ambientada nos anos 1940.

Graças à linguagem acessível e ao texto agradável, o livro constitui preciosa ferramenta para pais, professores, bibliotecários, editores, jornalistas e demais profissionais e atores sociais ligados à mediação da leitura. O mesmo afirma a professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Unicamp, Marisa Lajolo, referência nacional em Lobato e que assina o prefácio do livro, quando ressalta que a área da Educação é sua "destinatária privilegiada".

"Desde quando comecei a escrever a dissertação, tive a preocupação de fazê-la com um texto minimamente agradável e interessante, mesmo para leigos, sem deixar de lado, claro, as exigências do texto acadêmico. Sempre me acompanhou a clareza de que essa pesquisa, que foi exaustiva e minuciosa, seria útil para quem trabalha com crianças e literatura", recorda Socorro Acioli.

Referências
Tudo começou quando a escritora estava no mestrado e teve a primeira filha. "Na época, recebi um convite para publicar um livro para crianças. Antes de começar, senti necessidade de pesquisar sobre literatura infantil. Recorri a Lobato porque ele é um marco do gênero e por ter sido sua leitora na infância", recorda.

Coincidentemente, o retorno ao autor aconteceu enquanto Acioli estudava Teoria da Literatura, "especialmente estética da recepção que aborda as formas de ler, de como o leitor se comporta, sua relação com o texto. Aí casou tudo, decidi estudar a representação do leitor no Sítio do Picapau Amarelo", conta a cearense, que hoje tem publicados 15 livros infanto-juvenis. "Essa experiência anterior de pesquisadora fez uma diferença grande", admite. Dividida em três partes, "Aula de leitura com Monteiro Lobato" resgata, na primeira, aspectos da infância do autor, de suas leituras e influências e de seu caminho para a escrita - que incluiu a atuação como editor e como escritor para público infantil.

Na segunda, Acioli descortina de que maneiras Lobato trata assuntos como leitura, formação de mentalidades e conhecimento, além de questões como circulação de livros, (que, na ficção infantil, vinham de um livreiro na capital), interpretação e recepção (quando a mesma obra era recebida de maneira diferente pelas crianças), entre outras, tudo a partir das características e do comportamento dos personagens do Sítio.

Dona Benta, por exemplo, é apresentada como exemplo de mediadora de leitura, graças à bagagem cultural acumulada ao longo de anos de consumo de literatura. "Quando vai ler para os netos, ela senta com o livro e mais nada. Não veste fantasia, não faz vozes, não usa acessórios", frisa Acioli.

"Além disso, sua paixão pelos livros é sempre citada ao longo da obra, em frases como ´Dona Benta lia muito, Dona Benta encomendava livros´. Faz parte de sua caracterização ser uma leitora ávida. Assim, Lobato prega que a formação de jovens leitores depende de adultos dispostos a ler", explica a escritora.

Transformações
Acioli ressalta ainda o fato de Dona Benta compreender que os atos de recepção e interpretação são subjetivos, não havendo uma maneira única de empreendê-los. "Ela aceita as críticas dos pequenos ouvintes, por mais absurdas que sejam. Assim, estimula a leitura crítica. Também incentiva que a mesma se transforme em aventuras, que são maneiras de vivenciar o conteúdo", analisa a cearense. Para Acioli, Dona Benta representa o maior desafio atual na formação de jovens leitores, que, por sua vez, depende da formação e atuação apropriada dos adultos. "Um problema gravíssimo, por exemplo, é que boa parte dos professores é formada em Pedagogia, e no curso só existe uma disciplina de literatura infantil. Mas a atividade de mediar a leitura exige um preparo mínimo, conhecimentos sobre elementos estruturais da narrativa, sobre recepção e outros aspectos. Não é algo que se faz intuitivamente", critica.

"Além disso, os professores, em geral, não são leitores, seja pela falta de tempo decorrente da carga horária pesada do trabalho, seja pela sua formação precária", complementa.

Do lado dos ouvintes, Acioli destaca o comportamento de Emília como exemplo de como a literatura pode transformar mentes, comportamentos, e, eventualmente, a realidade em que vivemos. A experiência da boneca ao conhecer a história de Dom Quixote (do escritor espanhol Miguel de Cervantes) é explorada na terceira parte do livro.

"Defendo que uma leitura é boa quando ela modifica seu horizonte de expectativas, sua percepção. No caso de Emília, ela fica muito impressionada com Dom Quixote, chega a se transformar em ´Dona Quixotinha´, indigna-se com as injustiças sofridas por ele. Essa mudança de comportamento é sustentada em outros livros de Lobato. Em ´Memórias de Emília´, por exemplo, ela pede desculpas à Tia Nastácia, pelos insultos que costumava dirigir-lhe", comenta.

LIVRO
Aula de leitura com Monteiro Lobato
Socorro Acioli
Editora Biruta
2012, 160 páginas
R$ 32

Mais informações
Lançamento do livro Aula de leitura com Monteiro Lobato.
Amanhã, às 16 horas, na Livraria Cultura (Av. Senador Virgílio Távora, esquina com Av. Dom Luís, Aldeota). Contato: (85) 4008.0800

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